CRÓNICA DA FRENTE

documento do Pr@i@

 

 

 

 

 

 

 

         
 
 

Nota do Pr@i@

- O Documento que a partir de hoje começamos a divulgar data do ano de 1918, como tal, deverão ser tidas em consideração as diferenças na forma como se escrevia (e como se falava) a Língua Portuguesa nessa época. O documento surge sob a forma de uma carta escrita pelo Sargento Rodrigo António Rodrigues, a sua mãe Maria Ribeiro. Tentámos reproduzir a carta numa linguagem o mais moderna possível, para melhor entendimento e também porque alguns trechos da carta estão em mau estado (quase ilegíveis).No fundo desta página disponibilizamos aos nossos leitores as ligações para todas as páginas da carta na versão original.

 

 

 

 

 Sarg. Rodrigues

Campo de Batalha

21 de Julho de 1918

Mãezinha...

     Tendo hoje a possibilidade de lhe dizer alguma coisa sobre mim, envio-lhe esta carta pelo meu colega Trajano, o qual não sei se a Mãezinha conhece; mas enfim, ele prontificou-se a ir aí dizer-lhe alguma coisa sobre a minha situação; a qual é para lamentar, porque de vez em quando vejo ir um ou outro de licença, e com a certeza de não mais voltarem a estes campos e aldeias devastados por toda a qualidade de metralha e onde só reina a tristeza. Calcule a Mãezinha que na minha companhia actualmente somos 18 sargentos, para os quais existe uma escala para irem de licença, quando para isso haja autorização, ora já se deixa ver que eu estou em número 18, porque não há 19. Há um ano que estou na companhia, já vi ir 3 sargentos de licença, como vê, daqui a 6 anos aí estarei.

     A situação aqui é crítica quanto pode ser, os oficiais abandonam-nos cheios de terror, calcule que na minha companhia, a qual deveria ter 8 oficiais, conta actualmente apenas com um, os restantes têm fugido para os hospitais, não tendo doença alguma mas sim medo. Com respeito à minha subvenção, pelo que os meus outros colegas me dizem que os seus recebem, sei que a Mãezinha tem sido roubada. Não tenho eu a sorte de aí voltar; porque passaria bastante tempo... (ilegível) com essa gatunagem que só não se contenta com o que lhe dão, e acima de tudo com o seu bem-estar, para ir roubando às famílias dos que lutam com atrozes feras e que cada vez a morte se assemelha mais angustiosa porque umas vezes nos lembramos do que já temos sofrido e qualquer dia teremos que sucumbir nos campos da igualdade e outros pelos exemplos que estamos vendo todos os dias, e mesmo os que chegarem a escapar desta coisa toda a sua vida não pode ir muito longe.

     Pois a minha infelicidade foi eu ter sido castigado, porque alem de ter cumprido o meu castigo numa 1ª linha onde me encontrava a 70 metros dos boches, sofrendo os horrores que a mãezinha nem tão pouco pode fazer uma pequena ideia. Foi em Julho do ano passado, até por sinal o mês mais bonito cá em França, lá o passei, nunca com tenções de ainda ser vivo, mas sim de estar já fazendo companhia a muitos Portugueses que jazem por estes campos todos escavados pelas artilharias; enfim passaram-se os 25 dias que tinha que cumprir, e apesar de serviços espinhosos que todos os dias me obrigavam a fazer, ou para melhor dizer todas as noites, porque durante o dia é que se dormia alguma coisa, isto é os que passavam a noite comigo na 1ª linha vinham dormir para a 2ª, mas eu é que de dia e de noite lá tinha que estar encostado ao parapeito, até que no dia 4 de Agosto às 16 horas completei o meu fadário e lá saí do meu buraquinho que eu mesmo fiz a um cantinho da trincheira e que tanta vez me livrou da morte, pois que sempre tive a felicidade de não me rebentar uma granada em cima de tantas que todos os dias em meu redor revolviam a terra. Se eu aí aparecesse tal qual como saí ninguém me conheceria, o fato cheio de rasgões e numa completa lama, o cabelo e barba tapando as orelhas, piolhos eram como chuva e o corpo num perfeito esqueleto.

     Mas tudo cumpri com paciência confiado em voltar para a companhia que distava uns 90 Kilómetros das trincheiras e onde já se estava tranquilo, mas ainda me sucedeu o contrário, porque o General Narciso não só se contentou em me castigar, como ainda me mandou para a 1ª Companhia de Sapadores Mineiros que então já andava trabalhando nas trincheiras e lá comecei eu então trabalhando com um grupo de homens, sempre nos sítios mais perigosos que para mim eram escolhidos visto não ter ninguém que punisse por mim e eu na companhia ser tido como um correccional. Mas eu a nada fazia oposição, apenas procurava desempenhar-me de todos os encargos o melhor possível, para ver se assim os meus chefes compreendiam que eu não era nada do que eles julgavam; e como tal assim sucedeu, porque já fez um ano que aqui estou na Companhia e nunca mais fui castigado nem repreendido, enquanto que camaradas meus que os Comandantes tinham em boa consideração já o têm sido. Mas contudo durante todo esse tempo que andei trabalhando a sorte sempre me protegeu, porque além de andar sempre mais exposto ao fogo da artilharia só de tempos a tempos é que me morria algum homem. Assim fui andando até ao dia 4 de Abril, neste dia foi abatido um Sargento à Companhia e que o dito era de Condutores, pois o Comandante quis ter então uma amabilidade para comigo e passou-me para os Condutores, foi então quando disse adeus aos meus trabalhos de trincheiras, porque os Sargentos montados não trabalham,...

continua...

 

ê imagens das páginas originais ê

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