LOUCURA DA NORMALIDADE  

por Márcio A. Medroa  

 

 

 

 

 

 

 

         
 
 

   É dito e feito que somos, uns mais do que outros é certo, fruto da sociedade onde nos inserimos. Moldamo-nos àquilo e aqueles que nos rodeiam. Não sei se é uma verdade lapidar mas é no mínimo consensual. A sociedade desde cedo se insinua e se entranha em nós, molda-nos segundo padrões e normas. Direcciona-nos segundo um normal e ganha ascendente sobre as nossas vontades, num jogo de contrapartidas de ganhos e perdas. Construímos uma imagem que se pauta por determinados comportamentos e atitudes que agradam aos outros. Porque esse é o caminho que mais se adequa, e melhores vantagens nos trás. Negligenciamos muitas vezes as nossas verdadeiras vontades. Este processo pode ser mais ou menos consciente, ou inconsciente até.

   Será que no percurso das nossas vidas nos confrontamos alguma vez com a ideia de que os propósitos daquilo que fazemos e aspiramos é algo que nos é imposto, e até exigido, e não expressa de forma satisfatória a nossa pessoa como a entendemos. Porque isto do social tem de ser encarado como uma forma de ditadura, embora subtil. E as ditaduras são algo que eu não tolero! E por isso aspiro à mudança. Mas isso de cortar com o vigente implica ruptura e eu não sou de extremos. Sou de certa forma contra esta loucura da normalidade, mas como remar contra a maré é algo impensável relego-me para o lugar de uma espécie de rebelde conformista, isto é, pertenço a esta realidade mas não perco a percepção crítica da mesma. Aceito-a integro-me nela, mas comento-a da forma mais despudorada que me é possível.

   Entendo o processo de sociabilidade como um jogo. O jogo social. Este jogo tem os seus contornos bem definidos e tem na sua génese a hipocrisia. A ironia também é parte integrante do jogo. Funciona basicamente com o desempenho de papeis que tem como objectivo desencadear nos outros o retorno que cada um espera, e age segundo isso. Jogando os restantes da mesma maneira, uma espécie de corte contínua que condiciona a todos. Poucas vezes se expressa a verdade, um certo polimento necessário que nos deixa afónicos e nos recalca. Mas como tudo isto é inevitável para a nossa sobrevivência em sociedade é necessário jogar desta forma e se possível ser se bom ao faze-lo, potencializar a nossa performance.

   Jogue o jogo da normalidade da melhor forma que possa e saiba, porque no fundo este jogo é como os outros e interessa ganhar, seja hipócrita à vontade, mas não perca o sentido crítico de si e daquilo que o rodeia porque isso é que faz de si uma pessoa melhor, como também cultiva a sua individualidade. E essa sim não participa no jogo.

    Márcio A. Medroa

 

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